SEGURANÇA INTERNACIONAL E UMA LEITURA PRÉ-SÓCRATICA

Pretende-se nessa resenha trabalhar o texto “Uma história da Guerra” de Keegan. Como se percebe a arte da guerra e o porquê os homens entram em conflitos. E o mesmo afirmará que toda guerra tem a mesma raiz. Afirmando que, a história da guerra acompanha a do homem, e que ela esteve sempre presente no espírito da humanidade. Bem como a abordagem de Clausewitz sobra à guerra, que diferentemente de Keegan, colocará que a guerra é fruto de decisões e de ações estritamente políticas. E onde ele afirma que "a guerra é a continuação da política por outros meios”. Tem-se que o “estado de paz” é considerado a antítese do “estado de guerra”, podendo ser alcançado por prevenção, dissuasão e bem como a aniquilação física do inimigo. E conseqüentemente a vontade do vencedor. E ver traços de influências de alguns Filósofos, como os Pré-Socráticos e Nietzsche, na obra do autor; que são marcantes.

Uma História de Guerra

Primeiramente tentar-se-á fazer uma discussão entre o Neo-Realismo e o Pós-Estruturalismo e tentar resgatar suas influências na cultura Helenística. E que são indiscutíveis suas influências em algumas abordagens de Segurança Internacional na posterioridade.

Vê-se que a teoria Neo-Realista, coloca-se de lado a idéia do fluxo constante para que então se crie algo atemporal (ou seja, não corre o risco de ser afetado ao caminhar do tempo). Logo, ele faz parte de qualquer época ou tempo. Aqui é inegável a influência de Parmênides, que colocava que o ser é uno, imóvel, indestrutível e eterno. Como o próprio filósofo afirmava, “O ser é, e não ser não é”. Logo ele é imutável. Assim a teoria Neo-Realista tem fortes influências gregas, quando também coloca o fluxo constante dento das Relações Internacionais.

Ao contrário, o Pós-Estruturalismo adota a teoria oposta. Ao aceitar as mudanças constantes das coisas, aqui se vê a influência de Heráclito. O filósofo afirmará que tudo flui, e somente a mudança é real. Enquanto o Neo-Realismo buscará em Parmênides sua base teórica, e rejeitará a mudança. O Pós-Estruturalismo rejeita imutabilidade, e afirma a mudança como algo constante, como dizia Heráclito.

Seguindo a lógica de Parmênides, o Não-Ser não pode se movimentar, pois se ele alterar, se tornará outro Ser; mesmo permanecendo a Ser. Então, a imutabilidade do elemento, possibilita a compreensão do Ser. Mais abaixo irá ser abordado esse conceito, dentro da teoria de Keegan. Assim tem-se a compreensão do Neo-Realismo, que abandona a mutabilidade para poder compreender a natureza do Estado e o dilema da segurança. Pois para garantir a sobrevivência do Estado à principal tarefa e conhecer o que pode influenciar o seu comportamento, o que garantirá aos Estados procurarem soluções para protegerem-no. Assim é necessária uma imutabilidade no sistema.

Frente a tudo isso, Keegan coloca um ponto de interrogação sobre o que é a guerra. Qual seria a diferença entre as inúmeras tribos e os soldados da segunda guerra? Nenhuma. Mas há certa semelhança entre eles, e que é passível de perceber e estudá-la, por haver algo imutável. Com o filósofo Grego, citado acima, consegue-se perceber essa imutabilidade bélica da humanidade, ou como ele diz, uma imutabilidade do Ser.

A partir disso compreender-se-á a imutabilidade da guerra. Ela será sempre a mesma. Como afirmara Keegan, ela é cultural. Absolutamente todas as civilizações tiveram sua origem na nela. Pode-se ver que há uma constante repetição desses cenários ao decorrer da história.

Nietzsche, em Segunda Intempestiva, irá dizer que esse homem, agora, consegue memorizar os fatos e não mais esquecê-los, ficando preso ao passado e repetindo tudo. Isso irá chegar a Keegan, e ele irá procurar o porquê do comportamento violento do homem, e sua repetição.

Ele também passará por abordagens neurológicas e biológicas, onde o homem possui hormônios que o colocam-nos com um comportamento agressivo. E uma abordagem antropológica, evidenciando a evolução darwinista, como também e os fatores psicológicos.

O autor da uma contextualizada sobre a origem da guerra, e a relação das origens de povos primitivos por ela. E colocando assim sua enorme capacidade de recordar dos fatos acontecidos, e de não esquecê-los. Evidenciando, mais uma vez, Nietzsche, que coloca que esse homem fica preso ao seu passado, e vai se transformando num “invisível fardo das trevas” Nietzsche (p. 105).

Keegan apresenta algumas tribos ao redor do mundo, em que a prática da violência evoluiu-se em diversos estágios, como os Ianomâmis. Estes não estão à procura de expandir seu território, mas poder garantir sua soberania.

Apresenta, também, os Maring, povos montanheses da Nova Guiné. Esses projetavam armas muito elaboradas com as quais lutavam em rituais com regras e fases bem definidas, como uma espécie de jogo. Mostrando o caráter cultual da guerra.

Outra tribo eram os Maoris, onde sua organização era bem próxima da condição de Estado. E eram organizados no campo de batalha. Assim como os Aztecas, que tinham uma organização muito bem definida e uma sociedade hierarquizada, onde a religião era central. Onde a guerra era para conseguir vítimas para sacrifícios de sangue.

No período Neolítico, o homem já possuía instrumentos para guerrear. E na região do crescente fértil, começa-se um processo de sedentarização do homem, fazendo com que ele desenvolva a agricultura e o pastoreio, estimulando o crescimento populacional, e com isso a idéia da propriedade privada, que conseqüentemente ocorre reação caso haja usurpação. Em Jericó, é possível de observar um alto muro de proteção, mostrando seu objetivo claro, que é a defesa contra ameaça externa.

Assim é possível de comparar Keegan com Nietzsche; onde aquele busca sua base teórica para formulação de sua teoria sobre a Guerra. Como afirma o Filósofo, o ser humano é preso ao seu passado e este aumenta quanto mais anos se vão à humanidade. Como, exatamente, Keegan afirma, só há uma cultura de guerra, e todas as civilizações tem a mesma origem que é nela. Colocando-o preso a isso.

Vê-se, então, uma repetição ao longo da história, o que permite ver certas semelhanças entre a teoria nietzschena com Keegan. Assim, o homem está condenado a viver preso ao seu passado, o que possibilita a ocorrências de batalhas como uma expressão da cultura. Com isso, toda civilização terá origem no conflito, basta voltar-se aos exemplos citados acima, das diversas tribos e suas origens. Assim, o homem sempre recorreu e sempre irá recorre à guerra. Podendo exemplificá-la com a teoria do Eterno Retorno de Nietzsche, onde tudo irá retorna incansavelmente. Então sempre houve a guerra, num eterno ir e vir da mesma. Assim, Keegan coloca-a como sendo cultural e acompanha a evolução desse homem, passando por toda história. Com isso é possível visualizar algo que e imutável e compreende-la, evidenciando a influência de Parmênides, como visto no inicio do texto. Pois a Guerra terá a mesma origem.

Consegue-se, então, perceber a influência clara dos Gregos, sobre a teoria de Keegan. Como fora afirmado pelos pré-socráticos, logo no início desse artigo, o Não-Ser não pode se movimentar, pois se ele alterar transformará em outro Ser, mesmo permanecendo a ser. Logo, a idéia de imutabilidade é um elemento essencial para a compreensão do Ser. O que teorizado por Keegan, entendemos a arte da guerra, pois ela é imutável, desde a pré-história até os conflitos atuais. E o que permite a ele afirmar que ela é cultural, sendo assim possível entendê-la por essa imutabilidade e compreensão da arte da Guerra.

Mas “Por que os Homens fazem Guerra?” Aqui então se percebe o conceito de imutabilidade proposto no início por Parmênides. Os homens fazem guerra, simplesmente por que está no “Ser” da humanidade; como se viu todas as culturas originaram nela. E não pode mudar, pelo fato de que se houverem mudanças não seria possível de compreendê-la, pois perderá esse elemento imutável.

Diferentemente de Keegan, tem-se Clausewitz, que coloca a natureza da guerra, se baseando nos acontecimentos de sua época. As grandes conquistas de Napoleão; Frederico, o grande, será a base para seu pensamento. O que remete novamente a Nietzsche em sua obra “Segunda Intempestiva”, onde colocará o conceito de história monumental, que só reconhecerá um fato histórico quando o mesmo é algo grandioso e nobre. Logo, todos aqueles acontecimentos que eleva a noção de homem, são necessários que ela sejam eternizados, e torne-se um monumento para história. E sejam lembrados.

Clausewitz afirma que a guerra é a continuação da política por outros meios. Assim ele afirma que a guerra é uma tática militar e que procura seus fins militares. Desarmar o adversário e obter a vitória são os objetivos a serem alcançados, para então obter a subordinação do inimigo a sua vontade. Os meios militares são um pouco diferentes dos objetivos políticos, pois aquele utiliza armamentos belicosos para impor sua vontade, que é pelo uso da força. Assim, a guerra é o caminho e o fim maior, que são objetivos políticos. Logo, Clausewitz coloca a alternativa que pode se dizer diferente daquilo proposto por Keegan. Sua teoria é ainda bastante atual e aplicável aos conflitos atuais. Clausewitz afirmará então que “a guerra é mais do que um verdadeiro camaleão, que adapta um pouco as suas características a uma determinada situação” (CLAUSEWITZ, 1984, p. 92).

Assim percebe-se a influência Heraclitica em sua teoria. Onde Heráclito afirma que é na mudança que as coisas acham repouso. Então se tem a célebre afirmação de Heráclito “O panta rei” que significa idéia de que tudo se move, e que é uma conseqüência do polemos (guerra, conflito). Onde o Pólemos está na condição de origem, ruptura ou causação de um momento imperante e que reina sobre tudo. Em conseqüência, assim ele afirma que "tudo flui enquanto resultado da tensão contínua dos opostos em luta". Percebe-se claramente essa característica, em Clausewitz, e nota-se na citação anterior.

Vê-se então, que a proposta de Clausewitz se torna incompatível com aquilo afirmado por Keegan. Onde o primeiro afirma que a guerra é continuação da política por outros meios, e é um meio e o fim para curva o inimigo a sua vontade. Ao contrário de Keegan que coloca a guerra como cultural, e todas as civilizações passaram por ela. E é perceptível a influencia da tradição filosófica grega em ambos os autores, ao resgatar traços de Heráclito e Parmênides: do Ser e o Não-Ser; o mutável e imutável. E conseqüentemente Nietzsche, ao resgatar a importância da história e características do Eterno Retorno.


© Texto Produzido Por Bruno Alves Cardoso Silva - Bacharel em Filosofia - Ufop bacharelado em Relações Internacionais - Unipampa- 17/01/2016 - Respeite os Direitos Autorais  


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