"O INFERNO SÃO OS OUTROS"

O cenário musical brasileiro já passou por inúmeros altos e baixos. Enquanto alguns ciclos se encerram, outros têm início. Por volta de 1997, surge a Banda Detonautas Roque Clube. Iniciada pelos jovens Luis Guilherme (Tico Santa Cruz) e Eduardo Simão (Tchello). A banda ficou completa “com a entrada dos guitarristas Renato Rocha e Rodrigo Netto, do baterista Fábio Brasil e do DJ Cléston, o Detonautas chegou à sua escalação clássica que, após a gravação de uma demo, entrou em campo com o disco Detonautas Roque Clube, lançado pela Warner Music em 2002”[1].

A banda é conhecida pelos hits que caíram no gosto do público, tais como: outro lugar, olhos certos, quando o sol se for, o dia que não terminou, o amanhã, só por hoje, tênis roque, você me faz tão bem, não reclame mais, insone, tudo que eu falei dormindo, verdades do mundo, oração do horizonte, eu vou vomitar em você. Todas essas faixas estão presentes em seus cinco álbuns – Detonautas Roque Clube · Roque Marciano · Psicodeliamorsexo&distorção · O Retorno de Saturno · Detonautas Roque Clube, A Saga Continua –

Em 2009, o Detonautas lançou ao vivo, CD e DVD acústicos no Pólo de Cine e Vídeo, no Rio de Janeiro. Presentes no registro, as inéditas Só Nós 2 e O Inferno São os Outros que se tornaram sucesso em rádios de todo o país. Dito tudo isso, queremos chamar a atenção para esta última.

A música “o inferno são os outros”, pertence ao repertório da banda, que tem como vocalista Tico Santa Cruz, o qual se diz amante da filosofia. Talvez venha daí a inspiração para a composição. Uma vez que, ela faz referência direta ou indiretamente ao filósofo existencialista francês Jean Paul Sartre (1905- 1980). Este, além de escrever obras filosóficas, escreveu romance, contos, peças de teatro, e ainda, teve atuações como crítico de obras de artes e literárias.

Bem provável que a inspiração venha da peça teatral sartriana “entre quatro paredes” (1944), “a fenomenologia do Outro e do ‘ser para outro’ foi um dos mais bem acabados pensamentos de Sartre. A dialética humana de ‘ser um com o outro’ é central: ver e ser visto corresponde a dominar e a ser dominado” [2].

A letra da música inicia com algumas perguntas que apontam para um questionário que ilustra a figura do “outro” como importante. Sem a visão da outra pessoa não somos notados. A ideia que gira em torno disso é o reflexo espelhado, ou arriscadamente, poderíamos chamar de “locus reflexus”, o qual apresenta justamente o oposto que quero. Mesmo buscando ser o arquétipo ideal que possa seguir de modelo a outras pessoas, quando esse paradigma é negado, a energia explosiva é direcionada a outra pessoa. A música ressalta algumas dessas questões: “o que seria da tua beleza, se eu fechasse os meus olhos para você? Do que adiantaria essa tua ideologia, se a tua própria liberdade se transformasse em opressão?”.

Na escatologia cristã, o conceito de inferno é o fechamento em seu egoísmo frente a graça de Deus, ou seja, mesmo tendo a oferta de libertação e possibilidade de salvação ainda ser capaz de não aceitar a oferta de redenção. Tudo o que se opõe à oferta de liberdade é infernal. Sartre quando escreve a peça “o inferno são os outros” revela aspectos onde apontam o outro como ruim, pois este apresenta o que há de pior em mim. Nisso, mais uma vez, repulsa aquilo que não nos agrada, mesmo possuindo um caráter sociável, queremos muitas vezes ser o ponto fulcral de toda a relação. Agir impulsivamente é algo egocentricamente errado, pois somos seres políticos e de relações.

A música ainda pondera que: “talvez você nem tenha percebido, que eu te quis também. Se ao menos eu pudesse te mostrar, que o inferno são os outros”. Na peça de teatro de Sartre, os personagens morrem e encontram-se no inferno, onde “são obrigados a se ver através dos olhos dos outros; olhos esses que não teriam sido os escolhidos para se conviver” [3].

Essa egocentricidade engrandece a possibilidade de regressão frente aos passos até hoje trilhados na busca da universalização dos direitos humanos. Essa tendência egocêntrica que está presente em todos os humanos, com maior ou menor intensidade, alcança seu ápice ou cúmulo quando se deseja que as outras pessoas sejam “cópia xerox” de nós mesmos.

Por fim, assevera-se que “’os outros’ são todos aqueles que, voluntária ou involuntariamente, revelam de nós a nós mesmos […]. Uma vez que a incapacidade de compreender e aceitar as fraquezas humanas torna a convivência realmente um inferno, o angustiante existencialismo ateu sartriano não nos deixa saída. Sem o mínimo de boa-vontade, não há paraíso possível”[4].

Referências:

[1] Disponível em: <http://www.detonautas.com.br/biografia/a-banda.>. Acesso em: 26 de agosto de 2015.
[2] FÉLIX, Luciene. Sartre: “o inferno são os outros. 2008. Disponível em: <http://www.esdc.com.br/CSF/artigo_2008_02_sartre.htm>. Acesso em: 26 de agosto de 2015.
[3] FÉLIX, 2008.
[4] FÉLIX, 2008.

© Texto Produzido Por Gerson Caxias - formado em Teologia pelo Unilasalle - Canoas RS - Respeite os Direitos Autorais
 
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